Nem sempre uma fogueira de São João serve de metáfora aos
castigos da seca sobre a terra ardente, como cantava Luiz Gonzaga em Asa
Branca. Em Sousa, município do Sertão da Paraíba, a tradicional festa popular
serviu em 2015 de alento para quem espera a volta de chuvas abundantes na
região.
Após cinco anos de estiagem no Nordeste, o município lançou
o programa São João das Águas. Em lugar de contratar atrações musicais com
cachês astronômicos, a prefeitura preferiu convocar trios de forró com músicos
locais a preços modestos. A economia serviu para bancar a perfuração de 130
poços para captação de água, inaugurados sob o ritmo do triângulo e da
zambumba.
O programa foi capaz de suprir as necessidades da população,
enquanto o açude São Gonçalo, principal fonte de abastecimento de água da cidade,
encontrava-se praticamente seco. O nível do reservatório voltou a subir neste
ano e chegou a perto de um terço de sua capacidade.
Ao se considerar o volume dos reservatórios próximos, muitos
deles em situação de aridez completa, a realidade dos moradores de Sousa é
relativamente confortável, ao menos por enquanto.
Um dos idealizadores do São João das Águas, Fernando
Perisse, ex-diretor do Departamento de Água, Esgoto e Saneamento Ambiental de
Sousa, afirma que a carência de água em cidades próximas deve incentivar
migrações para regiões que ainda possuem recursos hídricos. “O problema é o
efeito dominó: com os açudes da Paraíba em colapso, a rede de poços que criamos
passa a interessar a outros moradores da região.”
Prestes a entrar em seu sexto ano consecutivo de estiagem, o
Nordeste convive com a seca mais prolongada dos últimos cem anos. Segundo a
atualização de outubro do Monitor de Secas, da Fundação Cearense de
Meteorologia e Recursos Hídricos, todos os estados nordestinos sofrem
atualmente com a chamada seca excepcional, classificação utilizada quando a
estiagem resulta em uma situação emergencial, que inclui perdas de cultura e
escassez de água em reservatórios, córregos e poços. Em Pernambuco, o estado
mais afetado, 90% do território apresenta o quadro mais grave de seca.
Diversos açudes na região estão em situação crítica. Dos 107
açudes pernambucanos, 67 estão em estado de colapso: operam a menos de 10% de
sua capacidade. Na Paraíba, o panorama é semelhante. Dos 126 reservatórios
estaduais, apenas 30 têm capacidade armazenada superior a 20% de seu volume
total. Atualmente, 67 açudes operam com menos de 5% de suas capacidades.
O impacto da estiagem sobre a produção agropecuária no
Nordeste impressiona. Um levantamento recente da Confederação Nacional dos
Municípios aponta que, entre 2013 e 2015, a estiagem causou um prejuízo de
103,5 bilhões de reais na região.
O prejuízo equivale à soma do Produto Interno Bruto dos
estados de Alagoas, Piauí e Sergipe. Setor mais atingido, a agricultura teve
prejuízos de 74,5 bilhões de reais. Na pecuária, foram perdidos 20,4 bilhões
com a morte e queda no valor dos animais.
Mesmo estados que historicamente não costumam apresentar
estiagens graves têm sofrido com a falta de chuvas. No Maranhão, 60% do território
encontrava-se, em agosto, em situação de seca extrema. Segundo um relatório do
Instituto Maranhense de Estudos Socioeconômicos, em agosto de 2014 e 2015 não
foi registrada no estado uma situação de estiagem que merecesse a classificação
emergencial.
O baixo índice de chuvas entre outubro de 2015 e a primeira
metade deste ano impactou fortemente a produção na região sul do Maranhão:
apenas 50% dos 700 hectares previstos para a safra de soja foram plantados e as
perdas no setor da pecuária foram estimadas em 50 milhões de reais.
Marcio Honaiser, secretário de Agricultura, Pecuária e Pesca
do Maranhão, afirma que o retorno recente das chuvas na região sul do estado,
onde se encontram as principais atividades rurais, deu novo fôlego para os
produtores. “Buscamos o governo federal para garantir o adiamento das dívidas
agrícolas e pecuárias, mas ainda falta um gesto mais concreto do Planalto para
auxiliar a região.”
Embora o Ministério da Integração Nacional tenha
disponibilizado recentemente 30 bilhões de reais para mitigar os efeitos da
seca, a transposição do Rio São Francisco, principal obra federal para
abastecer o Nordeste, ainda não foi concluída.
A Agência Nacional de Águas prorrogou até março de 2018 o
início da operação do projeto. Uma das principais bandeiras dos governos de
Lula e Dilma Rousseff, o empreendimento pode assegurar o abastecimento de água
para 12 milhões de moradores dos estados de Pernambuco, Ceará, Paraíba e Rio
Grande do Norte, justamente aqueles mais afetados pela estiagem dos últimos
anos.
A demora na transposição da água nos quatro estados tem
relação com a Lava Jato. Envolvida nas investigações, a construtora Mendes
Júnior informou ao Ministério da Integração Nacional não ter condições de dar
prosseguimento às obras e abriu mão dos contratos de captação de água em
Cabrobó, em Pernambuco, e Jati, no Ceará. Os trechos paralisados do
empreendimento serão relicitados.
Segundo Perisse, a transposição pouco influenciaria
atualmente na situação de desabastecimento. Principal fonte prevista de
captação do São Francisco para suprir as necessidades de pernambucanos e
paraibanos, o reservatório de Sobradinho, na Bahia, tem capacidade armazenada
inferior a 5,5%. “Se as obras estivessem prontas, ainda assim a água não
chegaria no Semiárido.”
Preocupado com o colapso em andamento, Perisse alerta para o
descaso em relação aos moradores da região. “Vivemos essa situação em um
momento no qual uma direita extremamente antinordestina ganha força no Brasil.
Da forma como está, o Semiárido vai virar um deserto.”
Seca do nordeste
Música e letra de Rosana Valéria
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