O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, alvo da 24ª fase da operação Lava Jato, foi conduzido coercitivamente a prestar depoimento na Polícia Federal, em São Paulo, na manhã da última sexta-feira (4).
Confira o artigo do colunista Pepe Escobar para a agênciaSputnik International sobre a operação Lava Jato e o envolvimento do
ex-presidente Lula no caso:
Imagine um dos mais admirados líderes políticos globais na
história moderna sendo tirado de seu apartamento às 6 da manhã por agentes da
Polícia Federal do Brasil e forçado a ser levado em um carro sem identificação
para ser interrogado no aeroporto de São Paulo por quase 4 horas em conexão com
um escândalo de corrupção bilionário envolvendo a gigante petroleira estatal
Petrobras.
Parece algo produzido por Hollywood. E esta foi exatamente a
lógica por trás da elaborada produção.
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Os promotores públicos da Operação Lava Jato, que já dura
dois anos, mantêm os “elementos de prova” implicando o recebimento de fundos
por Lula – no mínimo 1,1 milhão de euros – do esquema de duvidosas propinas
envolvendo grandes empresas de construção do Brasil ligadas à Petrobras. Lula
pode ter – e a palavra de ordem é ‘pode’ – ter pessoalmente lucrado com o
esquema principalmente através de uma fazenda (que ele não possui), um
apartamento à beira-mar relativamente modesto, taxas no circuito global de
palestras e doações para o seu instituto.
Lula é o último animal político – no nível de Bill Clinton.
Ele já telegrafou que estava esperando por tal jogada, enquanto a Lava Jato já
tinha prendido dezenas de pessoas suspeitas de desvio de contratos entre as
suas empresas e a Petrobras – na ordem de mais de 2 bilhões de dólares – para
pagar os políticos do Partido dos Trabalhadores (PT), do qual Lula era o líder.
O nome de Lula veio à tona através de um informante ansioso
para chegar a um acordo de delação premiada. A hipótese trabalhada – não há
nenhuma prova cabal – é de que Lula, quando presidiu o Barsil entre 2003 e
2010, foi pessoalmente beneficiado pelo esquema de corrupção envolvendo a
Petrobras, obtendo favores para ele mesmo, o PT e o Governo. Enquanto isso, a
ineficiente Presidenta Dilma Rousseff também está sob um ataque elaborado por
um esquema de barganha do líder do Senado.
Lula foi questionado em relação a lavagem de dinheiro,
corrupção e suspeita de dissimulação de bens. A blitz hollywoodiana foi
ordenada pelo Juiz Federal Sérgio Moro – que sempre insiste ter sido inspirado
pelo juiz italiano Antonio di Pietro e a notória operação “Mani Pulite” (Mãos
Limpas) dos anos 1990.
E aqui, inevitavelmente, a coisa se complica.
Cercando os suspeitos usuais da mídia
Moro e a os promotores da Lava Jato justificaram a blitz
hollywoodiana insistindo que Lula havia se recusado a ser interrogado. Lula e o
PT insistiram veementemente no contrário.
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E, no entanto, os investigadores da Lava Jato tinham
consistentemente vazado para a mídia tradicional as palavras de efeito:
"Nós não podemos apenas morder Lula. Quando chegarmos a ele, vamos
engoli-lo." Isto implicaria, no mínimo, uma politização da Justiça, da
Polícia Federal e do Ministério Público. E também implicaria que a blitz
hollywoodiana pode ter sido apoiada num barril de pólvora. Como a percepção vira
realidade no ciclo de notícias frenéticas que não param, a "notícia"
– instantaneamente mundial – foi que Lula foi preso porque é corrupto.
No entanto, tudo fica mais curioso quando nós sabemos que o
Juiz Moro escreveu um artigo numa revista obscura em 2004 (somente em
português, intitulado “Considerações sobre a Operação Mãos Limpas”, revista
CEJ, número 26, julho / setembro de 2004), no qual ele claramente exalta a
"subversão autoritária da ordem jurídica para atingir alvos
específicos" e usando a mídia para intoxicar a atmosfera política.
Tudo isso serve a uma agenda muito específica, é claro. Na
Itália, direitistas viram toda a saga da Operação Mãos Limpas como um alcance
superjudicial desagradável; a esquerda, por outro lado, foi ao êxtase. O Partido
Comunista Italiano surgiu com as mãos limpas. No Brasil, o alvo é a esquerda –
enquanto a direita, pelo menos no momento, parece ser composta por anjos
cantores de hinos.
O mimado perdedor das eleições presidenciais do Brasil em
2014, Aécio Neves, foi apontado em esquemas de corrupção por três acusadores
diferentes – e tudo deu em nada, sem uma investigação mais aprofundada. Mesmo
com um outro esquema complexo envolvendo o ex-Presidente Fernando Henrique
Cardoso – o notório e vanglorioso ex-desenvolvimentista que virou um executor
neoliberal.
O que a Lava Jato já imprimiu com força pelo Brasil foi a
percepção de que a corrupção só paga quando o acusado é um nacionalista progressista.
Enquanto vassalos do consenso de Washington são sempre anjos –
misericordiosamente imunes a processos.
Isso está acontecendo porque Moro e sua equipe estão magistralmente jogando para o uso autodescrito por Moro dos meios de comunicação para intoxicar a atmosfera política – com a opinião pública manipulada em série antes mesmo de alguém ser formalmente acusado de qualquer crime. E, no entanto, Moro e as fontes de seus promotores são em grande parte farsa, trapaceiros astutos e mentirosos em série. Por que confiar em sua palavra? Pois não existem provas cabais, algo que até Moro admite.
E isso nos conduz para um cenário desagradável de um
possível sequestro de uma das democracias mais saudáveis do mundo, produzido no
Brasil pela mídia, Judiciário e polícia. E que é apoiado por um fato gritante:
todo o "projeto" da oposição da direita brasileira se resume a
arruinar a economia da 7.ª maior potência econômica global para justificar a
destruição de Lula como candidato presidencial em 2018.
Elite saqueando regras
Nenhuma das opções acima pode ser entendida por uma
audiência global sem alguma familiaridade com um clássico brasileiro. A lenda
diz que o Brasil não é para principiantes. De fato, esta é uma sociedade
extraordinariamente complexa – que essencialmente desce do Jardim do Éden
(antes de os portugueses o "descobrirem” em 1500) até a escravidão (que
ainda permeia todas as relações sociais), passando por um evento crucial em
1808: a chegada de Dom João VI de Portugal (e imperador do Brasil pelo resto da
vida), que fugiu da invasão de Napoleão, levando com ele 20 mil pessoas que
planejaram o Estado brasileiro "moderno". "Moderno" é um
eufemismo: a história mostra os descendentes destes 20 mil, na verdade,
estuprando o cego país ao longo de 208 anos. E alguns nunca foram responsabilizados.
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As tradicionais elites brasileiras compõem uma das misturas
arrogantes-ignorantes mais nocivas do planeta. “Justiça” e controle policial
são usados como arma quando as pesquisas não favorecem suas agendas.
Proprietários da grande mídia brasileira são uma parte
intrínseca dessas elites. Muito parecido com o modelo de concentração dos
Estados Unidos, apenas quatro famílias controlam o panorama da mídia, acima de
tudo o império de mídia Globo, da família Marinho. Eu experienciei de dentro,
em detalhes, como eles operam.
O Brasil é corrupto até a medula – desde as elites
compradoras até uma grande quantidade de “novas” elites, que incluem o PT. A
ganância e a incompetência apresentada por uma série de partidários do PT são
aterradoras – um reflexo da falta de quadros de qualidade. A corrupção e o
tráfico de influência envolvendo a Petrobras, empresas de construção e os
políticos é inegável, mesmo se isso empalidece em comparação com as peripécias
do Goldman Sachs ou da Big Oil e/ou da compra/suborno de políticos dos EUA por
Koch Brothers / Sheldon Adelson-style.
Se fosse uma cruzada sem obstáculos contra a corrupção – como os promotores da Lava Jato afirmam que é – a oposição da direita/vassalos das velhas elites deveriam ser igualmente expostos na grande mídia. E não teria nada remotamente parecido com a blitz hollywoodiana, com Lula – pintado como um simples delinquente – humilhado na frente de todo o planeta.
Os promotores da Lava Jato estão certos; percepção é
realidade. Mas e se tudo dá errado?
Sem consumo, sem investimento, sem crédito
O Brasil não poderia estar em uma situação mais sombria. O
PIB caiu 3,8% no ano passado; provavelmente ficará abaixo de 3,5% este ano. O
setor industrial caiu 6,2% no ano passado, e o setor de mineração caiu 6,6% no
último trimestre. A nação está a caminho de sua pior recessão desde… 1901.
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A (incompetente) administração de Rousseff não criou um
plano B para a desaceleração chinesa na compra da riqueza mineral/agrícola do
Brasil e para a recessão global geral nos preços das commodities.
O Banco Central ainda mantém a sua taxa de juros de
referência na gritante marca de 14,25%. O "ajuste fiscal" neoliberal
desastroso de Rousseff na verdade aumentou a crise econômica. Hoje, Rousseff
"governa" – isto é uma figura de linguagem – para o cartel bancário e
os rentistas da dívida pública brasileira. Mais de US$ 120 bilhões em orçamento
do Governo evaporam para pagar juros da dívida pública.
A inflação está alta – agora na marca de dois dígitos. O
desemprego está em 7,6% – ainda não é tão ruim como em muitos lugares da União
Europeia – mas está em crescimento.
Os usuais suspeitos, claro, estão girando sem parar, deleitando-se em como o Brasil se tornou "tóxico" para os investidores globais.
Sim, é desolador. Não há consumo. Nenhum investimento.
Nenhum crédito. A única saída seria desbloquear a crise política. Os parasitas
da oposição têm apenas uma obsessão; o impeachment da Presidenta Rousseff. Tons
de uma boa e velha mudança de regime: para estes vassalos de Wall Street /
Império do Caos, uma crise econômica, alimentada por uma crise política, deve
por todos os meios derrubar o Governo eleito de um ator-chave dos BRICS.
E então, de repente, fora do campo da esquerda, surge… Lula.
O movimento contra ele pela investigação da Lava Jato ainda pode sair pela
culatra – para pior. Ele já está no modo de campanha para 2018 – embora não
seja um candidato oficial, ainda. Nunca subestime um animal político da
estatura dele.
O Brasil não está nas cordas. Se reeleito, e assumindo que
ele poderia limpar o PT de uma legião de criminosos, Lula poderia criar uma
nova dinâmica. Antes da crise, o capital do Brasil estava se globalizando – via
Petrobras, Embraer, BNDES (o banco modelo que inspirou o banco dos BRICS), as
empreiteiras. Ao mesmo tempo, podem existir benefícios em quebrar, pelo menos
parcialmente, este cartel oligárquico que controla toda a infraestrutura de
construção no Brasil; pensem nas empresas chinesas construindo ferrovias de
alta velocidade, barragens e portos que o país mal tem.
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O próprio Juiz Moro teorizou que a corrupção contamina
porque a economia brasileira é muito fechada para o mundo exterior, como a
Índia era até recentemente. Mas há uma diferença gritante entre abrir alguns
setores da economia brasileira e deixar que interesses estrangeiros vinculados
às elites saqueiem a riqueza da nação.
Então, mais uma vez, temos de voltar ao tema recorrente em
todos os principais conflitos globais.
É o petróleo, estúpido
Para o Império do Caos, o Brasil tem sido uma grande dor de
cabeça desde que Lula foi eleito pela primeira vez, em 2002. (Para uma
apreciação das complexas relações entre EUA e Brasil, verificar o trabalho
indispensável de Moniz Bandeira.)
A prioridade do Império do Caos é evitar o surgimento de potências regionais alimentadas por abundantes recursos naturais, desde o óleo até minerais estratégicos. Brasil se encaixa amplamente na conta. Washington, naturalmente, se sente no direito de "defender" esses recursos. Assim, a necessidade de reprimir não apenas as associações de integração regional, como o Mercosul e a Unasul, mas acima de tudo o alcance global dos BRICS.
A Petrobras costumava ser uma empresa estatal muito
eficiente, que virou a única operadora das maiores reservas de petróleo
descobertas no século XXI até agora: os depósitos do pré-sal. Antes de se
tornar o alvo de um enorme ataque especulativo, judicial e dos meios de
comunicação, a Petrobras costumava contabilizar 10% do investimento e 18% do
PIB brasileiro.
A Petrobras encontrou os depósitos do pré-sal com base na
sua própria investigação e inovação tecnológica aplicada à exploração de
petróleo em águas profundas – sem nenhuma interferência externa que seja. A
beleza é que não há risco: se você perfurar nesta camada do pré-sal, você é
obrigado a encontrar petróleo. Nenhuma empresa no planeta iria abrir mão disso
em uma competição.
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Mas, ainda assim, um notório parasita direitista da oposição
prometeu que a Chevron em 2014 entregaria a maior parte da exploração do
pré-sal para a Big Oil. A oposição da direita está ocupada alterando o regime
jurídico do pré-sal; ele já foi aprovado no Senado. E Rousseff está mansamente
indo nesta direção. Alinhe isto com o fato de que o Governo Dilma não fez
absolutamente nada para comprar de volta o estoque da Petrobras – cuja queda
vertiginosa foi habilmente projetada pelos usuais suspeitos.
Desmantelando meticulosamente a Petrobras, a Big Oil,
eventualmente, lucrando com os depósitos do pré-sal, colocando em xeque a
projeção de poder global do Brasil, tudo isso joga muito bem a favor dos
interesses do Império do Caos. Geopoliticamente, isso vai muito além da blitz
hollywoodiana e a Operação Lava Jato.
Não é coincidência que as três maiores nações BRICS estão
simultaneamente sob ataque, em diversos níveis: Rússia, China e Brasil. A
estratégia criada pelos mestres do universo que ditam as regras no eixo Wall
Street/Beltway é de minar por todos os meios o esforço coletivo dos BRICS em
produzir uma alternativa viável para o sistema econômico/financeiro global, que
por enquanto é submetido ao capitalismo de cassino. É improvável que Lula, por
si só, seja capaz de detê-los.
Via: Sputnik
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