Isto não é jornalismo
Incomodavam-me, em outros tempos, os sorrisos do sambista e
do futebolista. Edulcorados pela condescendência de quem se crê habilitado à
arrogância. Superior, com um toque de irônica tolerância. Ou, por outra: um
sorriso vaidoso e gabola.
Agora me pergunto se ainda existem sambistas e futebolistas
capazes daquele sorriso. Foi, aos meus olhos, por muito tempo, o sinal de
desforra em relação ao resto do mundo, a afirmação de uma vantagem tida como
indiscutível. Incomodou-me, explico, considerar que a vantagem do Brasil,
enorme, está nos favores recebidos da natureza e atirados ao lixo pela chamada
elite, que desmandou impunemente.
Quanto ao sambista e ao futebolista, não estavam ali por
acaso. Achavam-se os tais, e os senhores batiam palmas. Enxergavam neles os
melhores intérpretes do País e no Carnaval uma festa para deslumbrar o mundo.
O Brasil tinha outros méritos. Escritores, artistas,
pensadores, respeitabilíssimos. Até políticos. Ocorre-me recordar a programação
do quarto centenário de São Paulo, em 1954, representativa de uma metrópole de
pouco mais de 2 milhões de habitantes e equipada para realizar um evento que
durou o ano inteiro sem perder o brilho.
Lembro momentos extraordinários, a partir da presença de
telas de Caravaggio em uma exposição do barroco italiano apresentada no
Ibirapuera recém-inaugurado, até um festival de cinema com a participação de
delegações dos principais países produtores.
A passar pela visita de William Faulkner disposto a trocar
ideias com a inteligência nativa. Não prejudicaram a importância da presença do
grande escritor noitadas em companhia de Errol Flynn encerradas ao menos uma
vez pelo desabamento do primeiro Robin Hood de Hollywood na calçada do Hotel
Esplanada.
A imprensa servia à casa-grande, mas nela militavam profissionais
de muita qualidade, nem sempre para relatar a verdade factual, habilitados,
contudo, a lidar desenvoltos com o vernáculo. Outra São Paulo, outro Brasil.
Este dos dias de hoje está nos antípodas, é o oposto
daquele. A despeito da irritação que então me causava o sorriso do futebolista
e do sambista, agora lamento a sua falta, tratava-se de titulares de talentos
que se perderam.
Vivemos tempos de incompetência desbordante, de
irresponsabilidade, de irracionalidade. De decadência moral, de descalabro
crescente. Falei em 1954: foi também o ano do suicídio de Getúlio Vargas,
alvejado pelo ataque reacionário urdido contra quem dava os primeiros passos de
uma industrialização capaz de gerar proletariado, ou seja, cidadãos conscientes
de sua força, finalmente egressos da senzala.
Não cabe, porém, comparar Carlos Lacerda com os golpistas
atuais, alojados na mídia, grilos falantes dos barões, a serviço do ódio de
classe. Lacerda foi mestre na categoria vilão, excelente de fala e de escrita.
Os atuais tribunos de uma pretensa, grotesca aristocracia,
são pobres-diabos a naufragar na mediocridade. Muitos deles, como Lacerda,
começaram na vida adulta a se dizerem de esquerda, tal a única semelhança. Do
meu lado, sempre temi quem parte da esquerda para acabar à direita.
Os sintomas do desvario reinante multiplicam-se, dia a dia.
Alguns me chamam atenção. Leio, debaixo de títulos retumbantes de primeira
página, que o ex-ministro Gilberto Carvalho admitiu ter recebido certo lobista.
Veicula-se a notícia como revelação estarrecedora, e só nas
pregas do texto informa-se que Carvalho convidou o visitante a procurar outra
freguesia. De todo modo, vale perguntar: quantos lobistas passam por gabinetes
ministeriais ao praticar simplesmente seu mister? Mesmo porque, como diria
aquela personagem de Chico Anysio, advogado advoga, médico medica, lobista faz
lobby.
Outro indício, ainda mais grave, está na desesperada,
obsessiva busca de envolver Lula em alguma mazela, qualquer uma serve. Tanto
esforço é fenômeno único na história contemporânea de países civilizados e
democráticos. Não é difícil entender que a casa-grande está apavorada com a
possibilidade do retorno de Lula à Presidência em 2018, mesmo o mundo mineral
percebe.
Mas até onde vai a prepotência insana, ao desenrolar o
enredo de um apartamento triplex à beira-mar que Lula não comprou? A quem
interessa a história de um imóvel anônimo? Que tal falarmos dos iates, dos
jatinhos, das fazendas, dos Rolls-Royce que o ex-presidente não possui?
Este não é jornalismo. Falta o respeito à verdade factual e
tudo é servido sob forma de acusação em falas e textos elaborados com
transparente má-fé. Na forma e no conteúdo, a mídia nativa age como partido
político. ( CartaCapital ).



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