Donald Trump assume a Casa Branca nesta sexta-feira 20, e
logo a partir de fevereiro burocratas norte-americanos e brasileiros começam a
reunir-se para preparar uma agenda capaz de ajudar mutuamente o crescimento
econômico dos dois países, artigo escasso lá e aqui.
Ao menos foi esse o combinado entre o magnata e Michel Temer
em um telefonema em dezembro, ligação de iniciativa do Palácio do Planalto. Na
conversa, o peemedebista disse contar com investimentos dos Estados Unidos, que
os empresários dos dois países se conhecem bem e gostariam de ampliar os
negócios.
A ligação não foi capaz, porém, de levar Trump a convidar
Temer para a posse, indiferença que teria incomodado o brasileiro. É verdade
que o costume em Washington é chamar apenas embaixadores para a posse, mas a
falta de deferência do bilionário com o peemedebista é sintomática.
O Brasil não está no centro das preocupações de Trump, a
nutrir desprezo pelos latino-americanos, vide sua intenção de expulsar
mexicanos e construir um muro para impedi-los de entrar. Para Brasília,
contudo, os EUA são prioridade, embora não haja uma estratégia clara para
atingir o objetivo e traduzir isso em questões concretas. Temer e o
chancelerJosé Serra buscam desde o início uma relação carnal com o país, visto como
fonte de legitimação internacional do governo e de capitais capazes de empurrar
o PIB.
O descompasso é apenas uma das pedras no caminho da
aproximação, uma trilha cheia de perigos aos interesses nacionais, como a
secreta retomada das negociações sobre a Base de Alcântara.
Serra é uma das pedras. Torceu abertamente pela candidata
democrata, Hillary Clinton. Os tucanos construíram boas relações com os Clinton
na gestão Fernando Henrique Cardoso (1995-2002). O escolhido por Serra para
embaixador em Washington, Sergio Amaral, foi porta-voz de FHC.
Antes do triunfo de Trump, Serra comentara a hipótese: “Não
pode acontecer”, seria um “pesadelo”. Mais: “É preciso ser muito masoquista para
ficar imaginando que o Trump vá ganhar”. Consumado o “pesadelo”, resignou-se.
“Nas democracias, as decisões do eleitorado se respeitam e se cumprem não
apenas por quem vence.” Viu, Aécio Neves (PSDB)?
Arriscou-se ao torcer por Hillary (Foto: Jales
Valquer/Fotoarena)
Resignação à parte, Serra tende a merecer desdém por Trump.
Vizinhos dos EUA, México e Canadá mudaram seus chanceleres às vésperas da posse
do magnata. A mexicana Claudia Ruiz Massieu, por exemplo, tinha reclamado de o
presidente Enrique Peña Nieto convidar o xenofóbico bilionário para uma
conversa. Será que Serra corre o risco de perder o cargo? E que choque seria
para o tucano, autor de discretas juras de amor aos EUA em certas entrevistas.
No namoro com o Tio Sam, Serra ressuscitou uma ideia
polêmica e numa área sempre sedutora para os norte-americanos, a defesa. Mandou
recolocar na mesa de negociações um acordo para ceder aos EUA uma base de
lançamento de foguetes no Maranhão, a de Alcântara, em troca de recompensas.
Sergio Amaral conversou sobre o tema com o subsecretário de
Assuntos Políticos do Departamento de Estado, Thomas Shannon. Mantida em
sigilo, uma proposta foi elaborada e apresentada pelo Itamaraty a autoridades
dos EUA. Teria sido rejeitada, segundo CartaCapital apurou.
Alcântara é tida como a base mais bem localizada do mundo
para lançar foguetes. A partir dali, conseguem colocar satélites em órbita mais
rapidamente, com economia de combustível e, portanto, de dinheiro. No fim da
gestão FHC, houve um acordo, cujos termos foram ao Congresso, para ratificação.
Logo em 2003, primeiro ano de mandato, Lula enterrou o projeto.
Um dos ministros a defender o arquivamento foi Roberto
Amaral, então na Ciência e Tecnologia. Por seus termos, relembra ele, era um
“crime de lesa-pátria”.
Os Estados Unidos impunham várias proibições ao Brasil:
lançar foguetes próprios de base, firmar cooperação tecnológica espacial com
outros países, apoderar-se de tecnologia americana usada em Alcântara, usar
dinheiro obtido ali para desenvolver satélites nacionais. Além disso, só
pessoal norte-americano teria acesso à base.
“O acordo contrariava os interesses nacionais e afetava
nossa soberania”, afirma Amaral. “Os EUA não queriam nosso programa espacial,
isso foi dito por eles à Ucrânia.”
Sepultada a negociação, a Ucrânia foi o parceiro escolhido
em 2003 para um acordo espacial. Herdeira da União Soviética, tinha tecnologia
para fornecer. Brasil e Ucrânia desenvolveriam conjuntamente foguetes para
lançamentos em Alcântara, com o compromisso de transferência de tecnologia. A
proposta da chancelaria de Serra aos EUA teria espírito parecido.
Os EUA pretendiam botar o bedelho na base de Alcântara. Lula
enterrou o projeto
O Brasil alugaria a base em troca de grana e tecnologia. As
proibições do acerto de 2002, chamadas “salvaguardas”, seriam flexibilizadas.
Teria sido esse o motivo da atual recusa norte-americana de agora. A propósito:
o entendimento com a Ucrânia foi desfeito em 2015, após consolidar-se por lá um
governo pró-EUA.
Ao contrário de Serra, Temer não chegou a exibir paixão em
público, mas em privado mostrou-se interessado, e útil, aos EUA. Em 2006, ano
da reeleição de Lula, encontrou duas vezes o cônsul-geral americano no Brasil,
Christopher McMullen, para conversar. Uma em 9 de janeiro, outra em 19 de
junho, ambas em São Paulo.
As reuniões foram relatadas por McMullen a Washington em
telegramas secretos, tornados públicos pelo WikiLeaks, especializado em vazar
documentos, em 13 de maio passado, um dia após Temer chegar ao poder por causa
do afastamento provisório de Dilma Rousseff.
Os telegramas deixam a impressão de que a indicação do
peemedebista para vice de Dilma na eleição de 2010 foi um erro de Lula e do PT.
A menos que tenha prevalecido a tese da conveniência de, em política, manter os
amigos por perto e os inimigos mais perto ainda.
No primeiro encontro, segundo o telegrama, Temer não
mostrara objeção à Área de Livre-Comércio das Américas (Alca), ideia enterrada
no ano anterior por líderes progressistas sul-americanos, Lula entre eles, por
ameaçar a economia e a soberania locais.
Teria dito que a vitória de Lula em 2002 fora “fraude
eleitoral”, que o governo dele era “desapontador” e com “foco excessivo” no
social, que o PT se corrompera. Diante das pauladas, McMullen anotou “com
aliados assim...”, em referência à posição de Temer sobre Lula.
No despacho seguinte, sobre a conversa de junho, Temer foi
descrito como “anti-Lula”, por suas críticas à política econômica, ao petista e
a peemedebistas tidos como lulistas, caso de Renan Calheiros, hoje presidente
do Senado. O PMDB era então dividido no apoio ao governo. Presidente da sigla,
Temer pertencia à ala claudicante e reclamou “causticamente”, escreveu
McMullen, “das recompensas miseráveis” do governo. Em bom português: um
fisiológico descontente.
Ao divulgar no Brasil o filme sobre Snowden, Oliver Stone
aventou que a espionagem da NSA de 2013 poderia ter abastecido a Lava Jato
inaugurada em 2014 (Foto: Lotta Hardelin/AFP)
Temer e seus colegas deputados só mergulhariam no governo
após o novo triunfo de Lula. Uma reeleição que provocaria uma guinada do
petista no segundo mandato, sem as amarras ortodoxas do primeiro, previra Temer
a McMullen, seu único interlocutor a traçar tal prognóstico.
Fundador do WikiLeaks, asilado na embaixada do Equador em
Londres, o hacker australiano Julian Assange analisou o comportamento de Temer
em uma entrevista ao escritor brasileiro Fernando Morais, divulgada na
terça-feira 10.
Para Assange, o peemedebista revelou um grau “preocupante de
conforto”. “O que ele terá como retorno? Ele está claramente dando informações
internas à embaixada por alguma razão. Provavelmente, para pedir algum favor
aos Estados Unidos, talvez para receber informações deles em retorno.”
A guinada de Lula no segundo mandato, prevista por Temer,
ocorreu e foi embalada pela descoberta pela Petrobras, logo em 2007, de
petróleo em águas ultraprofundas. A partir dali, o Brasil despontou como player
em duas áreas delicadas para os americanos, a militar e a petrolífera. No fim
de 2008, o governo lançaria uma Estratégia Nacional de Defesa, a amarrar o
desenvolvimento do País ao reforço da segurança nacional.
Em 9 de janeiro de 2009, em telegrama confidencial a
Washington, o então embaixador dos EUA em Brasília, Clifford Sobel, dizia que o
Brasil caminhava para tornar-se uma “potência mundial moderna” e, mesmo que a
Estratégia não vingasse na íntegra, seria capaz de “desenvolver uma força
militar moderna com capacidade maior”.
A Marinha destacava-se no plano, reforço impulsionado
particularmente pelo pré-sal, cujo controle inspirava cuidados, sobretudo após
o anúncio norte-americano, em 2008, de reativação da IV Frota, força naval
atuante ao Sul do Oceano Atlântico, pertinho do petróleo descoberto. Com a
expansão desenhada para a Marinha, o Brasil sairia da 19a posição entre as
forças navais mais poderosas do planeta e chegaria à 9a no fim da década de
2020, conforme o livro As Garras do Cisne, de 2014, do jornalista Roberto Lopes.
Não por acaso que o presidente da Exxon, Rex Tillerson, é secretário de Estado de Trump (Foto: Christy Bowe/Globe Photos)
O marco no salto naval viria com o submarino movido a
energia nuclear, capaz de deslocar-se com mais velocidade e ficar mais tempo
sob o mar do que o convencional. “O mais importante instrumento de ameaça que o
País jamais possuiu”, escreve Lopes. Só os cinco membros do Conselho de
Segurança da ONU (China, EUA, França, Reino Unido e Rússia) detêm tecnologia de
construção desse submarino. O projeto brasileiro é parceria com a França,
acordo negociado em 2008 e selado em 2009. Custará 8,5 bilhões de reais e já
consumiu 1,8 bilhão. Segundo as últimas estimativas da Marinha, deve ficar
pronto em 2027 e entrar em operação para valer em 2029.
Chanceler de Lula e ministro da Defesa de Dilma Rousseff, o
embaixador Celso Amorim diz que com pré-sal, investimento militar e uma
política externa independente de Washington, a priorizar as relações com a
Ásia, a África e a integração latino-americana, o Brasil atraiu a ira do Tio
Sam. “Havia uma percepção do sistema político nos Estados Unidos de que o
Brasil começava a colocar as manguinhas de fora e de que era preciso nos
deter.”
A máxima “aos amigos tudo, aos inimigos a lei” dá uma pista
de como pode ter ocorrido tal contenção do Brasil por parte dos EUA. Segundo um
ex-ministro de Dilma, muitas informações da
Operação Lava Jato contra
multinacionais brasileiras, casos de Petrobras e Odebrecht, chegaram ao
Ministério Público e à Polícia Federal graças aos serviços americanos de
inteligência e seus aliados.
Condenado a 43 anos de cadeia por fraudes na Eletronuclear,
o pai do programa nuclear da Marinha, almirante Othon Luiz Pinheiro da Silva,
teria sido vítima de um agente infiltrado do Mossad, o serviço secreto de
Israel, tradicional parceiro dos Estados Unidos.
Sócia da estatal francesa DCNS na construção do submarino
nuclear, a Odebrecht acabou enredada abertamente pelo Tio Sam. Em 21 de
dezembro, o Departamento de Justiça americano e a empreiteira anunciaram um
acordo de leniência pelo qual a empresa pagará cerca de 7 bilhões de reais como
punição (uns 5 bilhões serão pagos no Brasil) por distribuir 788 milhões de
dólares em propinas (55% a autoridades estrangeiras) entre 2001 e 2016 em mais
de 20 países. Várias nações latino-americanas já estudam processar a
construtora, um pepino para os negócios da empresa.
As informações prestadas pela Odebrecht nos EUA serão
aproveitadas pelo procurador-geral da República,
Rodrigo Janot, no Brasil. Em
fevereiro de 2015, Janot viajou a Washington com a força-tarefa da Lava Jato
para conversas sobre temas incertos e não sabidos. Sabe-se apenas que não
aceitou a presença de representantes do governo, na figura da Advocacia-Geral
da União, nas reuniões.
No ano passado, o cineasta Oliver Stone lançou um filme
sobre Edward Snowden, denunciante da espionagem em massa praticada pela NSA,
agência de bisbilhotagem dos americanos que alvejou Dilma e a Petrobras. Em
passagem pelo Brasil para divulgar o filme em novembro, Stone sugeriu que a
espionagem da NSA, revelada em setembro de 2013, abasteceu a Lava Jato,
deflagrada em março de 2014.
“Essa informação vai para algum lugar, não fica lá guardada.
É usada para destruir, mudar governos, grandes empresas, a Petrobras, a empresa
petrolífera da Venezuela. Isso pode levar à guerra”, afirmou, convicto de
envolvimento dos EUA na queda de Dilma Rousseff.
Na entrevista a Fernando Morais, Assange revela os pecados
de Serra
Na recente entrevista, Assange também cita o papel dos
Estados Unidos no impeachment. Disse ter identificado “robôs” a convocar
pessoas nas redes sociais da web para participar de protestos anti-Dilma.
“Pensando em como são os programas americanos, vemos que essas coisas não
acontecem na América Latina sem apoio americano”, disse.
E “considerando a intenção do Departamento de Estado
americano em maximizar os interesses da Chevron e ExxonMobil”, o pré-sal teria
sido a razão para o Tio Sam querer derrubar o PT, patrono da lei que garantia a
presença da Petrobras na exploração em todos os campos.
O controle do pré-sal pela Petrobras era a base de um plano
de desenvolvimento que passava pelo estímulo à indústria naval (fornecedora de
navios-sonda), a construtoras de refinarias e às Forças Armadas.
Em 2009, um ano antes de concorrer ao Planalto pela segunda
vez, o hoje chanceler Serra reunira-se com dirigentes da Chevron e prometera
mudar a lei e liberar a exploração do pré-sal por estrangeiros sem a Petrobras,
caso ganhasse a eleição. A promessa foi cumprida com a ascensão de Temer, responsável
por sancionar, em novembro, lei proposta por Serra no Senado em 2015.
Foi na Exxon Mobbil que
Donald Trump pinçou seu homem para o
Departamento de Estado, Rex Tillerson, até aqui presidente da companhia. Pelo
menos aí Serra deverá ter facilidades, caso Tillerson nutra sentimentos do tipo
“gratidão”. Perspectivas de negócios não faltam no pré-sal.
Produzir ali é uma mina de ouro, com custos de extração
dignos dos sauditas. Metade da produção da Petrobras no ano passado saiu de
águas ultra-profundas, 1 milhão de barris por dia, alta de 33% ante 2015. O
presidente da estatal, Pedro Parente, manteve o saldão inaugurado no governo
Dilma e acaba de anunciar a venda de 21 bilhões de dólares em ativos entre 2017
e 2018.
O investimento de capitais talvez seja o que há de
oportunidade econômica em uma aproximação do Brasil com os EUA, quem sabe algo
em comércio exterior, já que a pauta de exportações do Brasil para o mercado
americano é de boa qualidade, centrada em manufaturados, ao contrário do que
ocorre com a China.
O problema, diz o economista Marcio Pochmann, um estudioso
das relações globais, é que os EUA são uma economia decadente e que, sob Donald
Trump, tendem a adotar uma postura protecionista para brigar com a China, o
grande parque fabril do planeta hoje.
O Planalto, ressalta Pochmann, poderia até tirar proveito
político de uma briga dessas, com jogadas parecidas com as de Getúlio Vargas
durante a Segunda Guerra Mundial, oscilante entre a Alemanha nazista e o bloco
formado por ingleses, franceses, russos e americanos. Foi dessa artimanha que o
Brasil arrancou dos EUA capitais para construir a primeira siderúrgica
nacional. “Usar os Estados Unidos para negociar com a China não seria de todo
ruim. Mas nós precisaríamos de um estadista.”
Não é o caso.
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