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Por: Leonardo Fernandes Brasil de Fato
Reportagem divulgada neste domingo (10) é parcial, não ouve o outro lado e apresenta falhas na apuração
Causou revolta Bolsonaro ensinar criança de 3 anos a fazergesto de armas para "defender os cidadãos de bem''. Quem doutrina mesmo?
Uma reportagem veiculada no programa "DomingoEspetacular" da TV Record, emissora de propriedade do bispo Edir Macedo,
da Igreja Universal do Reino de Deus, no último domingo (10), mostrou um
alinhamento com o novo governo de Jair Bolsonaro (PSL) em sua batalha
ideológica contra os movimentos populares, especialmente o Movimento dosTrabalhadores Rurais Sem Terra (MST).
Ignorando critérios éticos fundamentais para o exercício do
jornalismo — como escutar o outro lado, a reportagem intitulada “A Polêmica dos
Sem Terrinha” arremete contra as crianças do MST, filhos e filhas detrabalhadores rurais sem-terra. A matéria apresenta “especialistas” em direitos
da criança, mas não entrevista qualquer representante de entidades oficiais de
defesa da infância e juventude, menos ainda de integrantes do MST, como destaca
Erivan Hilário, membro do setor de educação do movimento.
“O Brasil é referência de entidades promotoras e de defesa
dos direitos das crianças e adolescentes, no entanto, nenhuma dessas entidades
com reconhecimento internacional foi ouvida”.
Nesta segunda-feira (11), o MST divulgou nota na qual
repudia o que chama de “ataque” da TV Record às crianças do sem-terrinha. No
texto, o movimento afirma que “a Rede Record, ao disseminar mentiras, não leva
em consideração critérios mínimos de apuração e imparcialidade, faltando, entre
outras questões, com a ética jornalística”.
“Na nossa concepção, a reportagem se insere em um contexto
maior, que é de criminalização do MST, sobretudo nesse momento em que vemos o
avanço cada vez maior de práticas de exceção no nosso país e percebemos o
alinhamento político-ideológico da emissora com o governo eleito. Trata-se, na
verdade, de mais um capítulo no processo de criminalização dos movimentos
sociais”, denuncia Hilário.
A reportagem especial, com quase 20 minutos de duração,
utiliza imagens públicas do MST, e de veículos de informação que deram ampla
cobertura ao 1º Encontro Nacional das Crianças Sem Terrinha, ocorrido entre os
dias 23 e 26 de julho, em Brasília. Na narrativa montada pelo jornal, os
“especialistas” questionam o suposto descumprimento do Estatuto da Criança e doAdolescente (ECA). Uma leitura que, segundo Hilário, é superficial e
tendenciosa, tendo em visto que o MST é um dos principais garantidores do ECA
nos territórios de reforma agrária, muitas vezes negligenciados pelo Estado.
“O ECA é de responsabilidade do conjunto da sociedade: do
Estado, da família, dos movimentos sociais, ou seja, a reportagem pegou um
aspecto da legislação e mesmo assim não aprofundou. Por exemplo, no ECA, diz
que as crianças têm direito a políticas públicas sociais. No entanto, o que a
gente vê em curso no país é exatamente o contrário. É a negação do direito das
crianças à educação. Exemplo disso é fechamento de mais de 27 mil escolas no
último período. Outro exemplo é que negam o artigo 53 do próprio ECA que trata
do direito à educação, e que diz que o acesso à escola pública deve ser próximo
à residência. No entanto, o que acontece é exatamente o contrário, é o
fechamento de escolas no campo, em uma sistemática de negar o direito das
crianças à educação”.
Segundo Hilário, não fosse a capacidade de organização das
famílias camponesas, o que inclui as próprias crianças, muitas delas viveriam à
margem de direitos, “sob o silêncio sepulcral” da mídia tradicional brasileira.
“O que nós fazemos é exatamente assegurar o direito das
crianças o direito à terra, o direito à escola. Se existem hoje escolas
públicas, gratuitas, municipais e estaduais, em territórios rurais, em
assentamentos, se deve graças à organização dos trabalhadores e das próprias
crianças, porque o protagonismo infantil é um dos direitos que está assegurado
pelo ECA. Então, se não fossem as próprias crianças e suas famílias colocando a
educação como direito, elas jamais teriam acesso à escola. E volto a afirmar,
as escolas que estão em assentamentos são escolas públicas, gratuitas, sob responsabilidade
dos estados ou municípios, com reconhecimento do MEC”.
Fonte ouvida pela matéria da TV Record acusa o MST de
“estimular a violência” das crianças e praticar “lavagem cerebral”. “As
crianças brasileiras estão submetidas sim à violência. À violência praticada
por essa sociedade que lhes nega o direito à educação. À violência por essa
sociedade que lhes nega a proteção. A gente entende que a criança é de
responsabilidade da família e da coletividade, do assentamento e do
acampamento. Violência é a fome que muitas crianças desse país estão
submetidas. Essa é a principal violência. As crianças dos nossos assentamentos
e acampamentos frequentam escola, tem seus espaços de lazer”, explica Hilário.
Erro de apuração
A reportagem questiona ainda a observação de critérios
fundamentais para a realização do Encontro Nacional das Crianças Sem Terrinhano ano passado, o que, segundo Hilário, foi mais um erro grave de apuração do
telejornal.
“Todo o encontro esteve baseado nas leis que regem a
organização de encontros dessa natureza com crianças. Foi observada desde a
autorização dos pais com reconhecimento em cartório, as crianças foram levadas
na companhia de educadores, o encontro foi realizado com 1200 crianças e mais
de 400 adultos com a tarefa de cuidá-las. Tínhamos UTI, posto médico no local,
ou seja, nada do que fizemos foi contra a legislação em vigor, ao contrário,
não fizemos isso somente para responder a uma questão legal, mas porque nós
acreditamos que as crianças precisam ter seus direitos preservados, entre eles,
a questão da proteção em sua integralidade. Tudo foi feito como manda a lei.”
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O MST é um movimento social fundado na década de 1980, por
trabalhadores rurais despossuídos de terra para o trabalho agrícola, e como uma
forma de reivindicar do Estado a realização da reforma agrária. Muitas daquelas
crianças sem-terrinha que passaram pelos espaços infantis do movimento, hoje
são profissionais que contribuem no desenvolvimento dos territórios, lembra
Hilário.
“Eu gostaria que eles pudessem falar com os advogados do MST
que foram sem-terrinha, com os médicos que foram sem-terrinha. Que falassem com
pessoas que hoje, formadas em universidades públicas, que eram sem-terrinha, e
que hoje contribuem para o processo de desenvolvimento do assentamento”.
Reincidente
Não é a primeira vez que, por razões meramente ideológicas,
a TV Record abre mão de critérios éticos fundamentais ao exercício do
jornalismo para atacar o diferente. Em janeiro deste ano, a emissora foi
condenada pelo Tribunal Regional Federal da 3ª Região (TRF-3), por realizar
ataques a religiões de matriz africana em sua programação. O Ministério Público
Federal demonstrou no processo que o conteúdo veiculado pela empresa se tratava
de “intolerância religiosa em pleno espaço público televisivo contra as
religiões afro-brasileiras”.
Por conta da condenação, a Record terá que dar direito de
resposta em quatro programas de televisão com duração de 20 minutos cada, além
de pagar uma indenização de R$ 300 mil para cada uma das entidades que ajuizaram
a ação: o Instituto Nacional de Tradição e Cultura Afro-Brasileira (Itecab) e oCentro de Estudos das Relações de Trabalho e da Desigualdade (Ceert).
Uma das fontes consultadas pela reportagem é o promotor
Munir Cury, do Ministério Público de São Paulo, que, supostamente, teria
ajudado a construir o Estatuto da Criança e do Adolescente. Em sua rede social,
Cury fez chamados a manifestações pelo impeachment da ex-presidenta Dilma
Rousseff. Também em sua rede social, a chefe de reportagem que assina a matéria
contra as crianças sem-terrinha, Renata Garofano, aparece fazendo campanha
eleitoral para Jair Bolsonaro.
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Reprodução/Facebook/Renata Garofano
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Cuidado com as crianças
A TV Record editou o material audiovisual do MST e de
veículos alternativos de imprensa, incluindo efeitos sonoros e visuais, que
buscavam dar dramaticidade à narrativa e promover uma suposta compaixão pelas
crianças. Mesmo tratamento não foi dado à notícia amplamente divulgada pela
mídia brasileira e portuguesa no final de 2017, sobre uma investigação aberta
pelo Ministério Público de Portugal para apurar uma suposta rede de tráficointernacional de crianças, que seria articulada pela Igreja Universal do Reinode Deus.
A TV portuguesa divulgou uma série de reportagens nas quais
acusava o líder da igreja e dono da TV Record, Edir Macedo, de tráfico
internacional de crianças. A defesa de Macedo negou as acusações e classificou
o conteúdo jornalístico de “campanha difamatória, mentirosa”.
A reportagem do Brasil de Fato entrou em contato a Rede
Record para comentar a divulgação da reportagem, mas até o fechamento desta
matéria não obteve resposta.
Lançamento do documentário SEM TERRINHA EM MOVIMENTO ✊ Brincar, sorrir e lutar!— MST Oficial (@MST_Oficial) 11 de fevereiro de 2019
📽 Exibição AO VIVO, HOJE, 19 HORAS na página do MST no Facebook:https://t.co/q8DeQe9NUI
NÃO PERCAM!🍿 pic.twitter.com/PueSLnjCgz
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