Estudantes protestam contra a Reforma do Ensino Médio, que
representaria um retrocesso para a educação pública
Por Renan Truffi
Coordenador-geral da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, Daniel Cara destrincha MP 746, que impôs mudanças e provocou ocupações em escolas
O que pensa Michel Temer sobre a reforma do Ensino Médio? Aoprograma Roda Viva, da TV Cultura, o presidente Michel Temer resumiu
recentemente o que pensa da ideia proposta por seu governo por meio da MedidaProvisória 746. “Nós estamos voltando a um passado extremamente útil”. O
retorno foi concretizado na quarta-feira 9 pelo Senado, que aprovou o texto por
43 votos a 13. Agora, a lei vai a sanção presidencial.
Assim como Temer, o coordenador-geral da Campanha Nacional
pelo Direito à Educação, Daniel Cara, classifica a MP como uma volta ao
passado, mas no sentido de retrocesso para a educação pública brasileira.
“[A reforma] faz com que os estudantes sejam divididos entre
aqueles que vão ter acesso a um ensino propedêutico e aqueles que vão ter
acesso a um ensino técnico de baixa qualidade. Temer teve a coragem ou a
pachorra de assumir isso quando enfatiza que na época dele a educação se
dividia entre clássico e científico, que eram dois caminhos que geravam uma
educação incompleta”, explica.
Em entrevista a CartaCapital, Daniel Cara explica como a
inclusão do ensino profissionalizante, dentre as trajetórias possíveis aos
estudantes, durante o novo Ensino Médio, vai empurrar os jovens com menor renda
para carreiras de subemprego, enquanto que os mais ricos poderão focar os
estudos nas áreas que desejam.
Mais do que isso, Cara alerta para possíveis brechas que a
MP abre para que o governo consiga privatizar parte do percurso feito pelos
estudantes secundaristas.
Leia a entrevista:
CartaCapital: Como você avalia a reforma do Ensino Médio e
uma possível reforma do Ensino Fundamental, ainda que detalhes não tenham sido
divulgados pelo ministro da Educação?
Daniel Cara: A reforma do Ensino Médio é uma antirreforma no
sentido de que ela acaba fazendo com que a Lei de Diretrizes e Bases da
Educação Nacional (LDB) – a MP altera pontos da LDB e da Lei do Fundeb – seja
desconstituída naquilo que se refere ao Ensino Médio e a Educação Profissional.
[A MP] estabelece uma bagunça e faz com que os estudantes
sejam divididos entre aqueles que vão ter acesso a um ensino propedêutico e
aqueles que vão ter acesso a um ensino técnico de baixa qualidade.
Temer teve a coragem ou a pachorra de assumir isso quando
ele assina que na época dele a educação se dividia entre clássico e científico,
que eram dois caminhos que geravam uma educação incompleta. Então essa MP, em
termos de alteração da LDB, é extramente preocupante.
Em relação ao que ela altera no Fundeb, é mais preocupante.
A conquista do Fundeb foi, ainda que de forma insuficiente, financiar desde a
matrícula na creche até a matrícula no Ensino Médio. Como a MP altera o Fundeb
e reconcentra os recursos no Ensino Médio, o resultado é que a Educação
Infantil, creche e pré-escola, vai ficar prejudicada e os governadores,
responsáveis pelo Ensino Médio, vão ser beneficiados contra a posição dos
prefeitos.
Não é à toa que essa MP foi divulgada durante a eleição
municipal, pra não gerar uma reação dos prefeitos, que até o momento não
perceberam que vão perder muitos recursos do Fundeb.
Agora o ponto concreto é que a maior demanda da sociedade
hoje é exatamente por creche. Então é uma MP que concentra recursos do Ensino
Médio, retomando a visão do Paulo Renato [ex-ministro da Educação de Fernando
Henrique Cardoso], de que é preciso focalizar as ações educacionais em algumas
etapas da educação, no caso dele foi o Ensino Fundamental.
Agora a Maria Helena [secretária-executiva do MEC] e o
Mendonça Filho [ministro da Educação] querem focalizar no Ensino Médio e
Fundamental, alijando a Educação Infantil em termos de financiamento. Então há
um retorno piorado ao que aconteceu na década de 1990.
Inclusive porque o Paulo Renato já não era um especialista
em educação, era um economista que gostava de educação, mas não entendia muito.
O Mendonça Filho, muito aquém disso, é uma pessoa que não entende de nada.
CC: Inclusive, o senador Aécio Neves, próximo da Maria
Helena, chegou a se vangloriar da MP, em artigo, porque essa seria a sua
proposta para a educação na época das eleições de 2014...
DC: Olha, eu li todos os programas eleitorais. Eles nunca
teriam coragem de dizer em 2014 o que estão fazendo agora. Existia uma
preocupação de aumentar a complementação da União no Fundeb, dizendo que era
importante melhorar o financiamento da Educação Infantil.
Então não é verdade que isso corresponde ao programa de 2014
porque nenhum candidato a presidente da República teria coragem de apresentar
uma MP com essa gravidade para reformar o Ensino Médio.
Além disso tudo que falei, existe um aspecto mais
prejudicial e danoso.Não se faz reforma educacional por Medida Provisória. O
princípio da educação nacional segundo o artigo 206 da Constituição Federal,
inciso sétimo, é a gestão democrática do ensino público.
Não se faz reforma educacional por um instrumento
legislativo que estabelece um fato consumado sobre o qual os parlamentares têm
que opinar.
Ou seja, é muito grave o que foi feito. Não é pouca coisa. E
o resultado disso, o que se expressa, é uma tentativa de desconstrução de tudo
que foi avançado, de tudo que deu certo nas gestões Lula e Dilma. Agora o
revanchismo político-partidário não pode prejudicar os estudantes. É isso que
está acontecendo com essa MP.
CC: Sobre isso, o Congresso Nacional já vinha discutindo uma
reforma do Ensino Médio há três anos, por meio de um projeto de lei do deputado
federal Reginaldo Lopes (PT-MG). Qual a avaliação que você faz dessa proposta?
DC: Não era um bom projeto. Pelo contrário, se fosse um bom
projeto, teria sido absorvido pela gestão da presidenta Dilma. Se fosse um
projeto consensual teria sido aprovado, inclusive por ter recebido advento de
uma comissão especial.
O mérito do Reginaldo Lopes foi o debate. Ele não tinha
deliberado efetivamente sobre o texto dele porque ele estava tocado e
sensibilizado com as críticas que ele recebia. O projeto do Reginaldo Lopes
tentava criar uma flexibilidade inflexível, era um paradoxo.
Você não cria uma flexibilidade no Ensino Médio apresentando
aos alunos, aos 16 anos de idade, cinco possibilidades de trajetória:
matemática, linguagens, ciências da natureza, ciências humanas e ensino técnico
profissionalizante de nível médio.
Naquele momento os estudantes não estão preparados para
escolher uma trajetória. Eles estão preparados, sim, para escolher matéria. A
flexibilidade real seria como? Você cria um ciclo básico e cria matérias
optativas. Isso é flexível.
Isso é o que acontece em outros países. Cálculo, por
exemplo, poderia ser uma disciplina ofertada numa escola para fazer com que o
estudante, que queira se aprofundar em matemática, possa entrar na universidade
com mais condições de fazer um bom curso de engenharia. Isso é um problema no
Brasil.
Praticamente todo curso de ciências exatas gera vazão de uma
série de estudantes porque não tiveram uma base de cálculo e matemática no
Ensino Médio. Então [o caminho] não é dar a possibilidade do jovem construir
uma trajetória porque isso é pobre em termos de possibilidade. E é muito sério
pra cobrar de um estudante que escolha um itinerário.
Mas, sim, você dar para os jovens a possibilidade de
escolher disciplinas eletivas que, inclusive, conversem com a Base Nacional
Comum Curricular e com a LDB. É você criar formas mais atrativas de apresentar
os componentes curriculares para os estudantes. Isso é flexibilidade, não é o
que está sendo apresentado por esse governo. O projeto do Reginaldo Lopes
estava recebendo críticas e estava sensível a essas críticas.
CC: Como, na sua opinião, essa MP atropela o processo de
conclusão da Base Nacional Curricular Comum?
DC: É difícil para as pessoas perceberam o jogo que está por
trás disso. A Maria Helena esteve, há alguns meses em São Paulo, e disse que o
debate sobre o Ensino Médio deveria parar porque ela queria reformar o Ensino
Médio. Isso saiu no Estadão.
Qual é o jogo que está posto? A MP diz que, e o governo tem
dito de maneira irresponsável, que as Artes e Educação Física vão ser
recuperadas na Base Nacional Comum. No Ensino Fundamental essas disciplinas não
foram excluídas, mas para o Ensino Médio foram. Já tem um recado claro aí.
Em segundo lugar, eles dizem que toda aposta está depositada
na Base e aí algumas entidades que apoiam o governo e não tem coragem de
assumir, como o Todos Pela Educação, vão à imprensa e dizem que tudo vai ser
decidido na Base.
O problema é que a Base estava num processo muito intenso de
consulta pública, esse processo foi paralisado e o que tem se comentado no
mundo da educação é que, se o conteúdo da participação social for ruim, eles
não vão utilizar esse conteúdo na formação da Base, vão fazer um texto de
gabinete.
Mas qual é o ponto que eles trazem? Quando a Base for
apresentada haverá mais uma rodada de discussão. A Base vai ser apresentada em
2017, quando o PSDB deve romper com o governo para poder lançar candidato à
Presidência -- porque dificilmente o Temer vai ter alguma popularidade
suficiente até 2018. A Base a ser lançada em 2017 está nas mãos da Maria
Helena. Mas vai ter um período em que ela já não vai mais estar dentro do
governo. A Base não vai ter dono.
Ou seja, é muito provável que, em 2018, a gente ainda não
tenha a Base. E se tiver, vai ser dado um prazo de implementação extremamente
extenso porque uma Base que é apresentada sem considerar a participação social
não será incorporada pelos professores.
É possível que se repita com a Base Nacional Comum
Curricular aquilo que aconteceu com os parâmetros curriculares nacionais,
liderados pela Maria Helena e por outros membros do governo Fernando Henrique
Cardoso.
Na época apresentaram uma proposta curricular que era alheia
ao debate que vinha sendo feito há anos para superar o currículo da ditadura
militar. O cenário que se apresenta é extremamente negativo. A tendência é de
jogar uma aposta muito grave e muito grande sobre a Base e sequer ter o
conteúdo da Base, com uma possibilidade de ruptura da equipe pensante do MEC
com o governo federal.
A educação, que por muitos anos ficou protegida da disputa
política, e isso aconteceu de fato no governo Lula e menos no governo Dilma
Rousseff, volta a ser centro de disputa.
Até porque o escolhido para ser ministro da Educação não é
alguém que goza de reconhecimento na área. Ele foi colocado na posição em que
está por ser do Democratas, um partido que apoia o governo Temer. Ele não foi
colocado na área por algum mérito ou por entender de educação, ele até assume
que não entende nada, que não é a área dele, ele é um administrador.
CC: Queria também expor para sua análise um argumento muito
utilizado pelo governo para justificar a MP da reforma do Ensino Médio, que é o
resultado do Ideb e o índice de evasão escolar. O senhor acredita que esses
números justificam uma MP e esse suposto caráter de urgência?
DC: Isso tem até a ver com os argumentos do governo para
defender a PEC 241. Eles usam o mesmo argumento para fazer essas maldades. O
que acontece? Para usar uma metáfora, a educação é uma cidadã que está morrendo
de sede. Ela não tem acesso a uma água de qualidade, vive com sede e precisa
beber água para poder sobreviver. Se você der metade de um copo de água para a
educação, você não vai resolver o problema.
O que isso tem a ver com a crítica do governo? O governo
utiliza o resultado do Ideb para fazer uma crítica ao desempenho do Ensino
Médio. O que o Brasil podia fazer que não representasse custo efetivo de
investimento na educação já foi feito. Agora precisa resolver as agendas
urgentes para poder matar a sede da educação.
Quais são essas agendas urgentes? É preciso pelo menos
equiparar os salários dos professores às demais profissões e melhorar a infraestrutura das escolas, inclusive é
isso que é pedido pelos estudantes.
A Unicef mostra que a infraestrutura é um elemento central
de reivindicação dos estudantes que ocuparam as escolas e querem uma melhoria
do Ensino Médio.
E é preciso obrigatoriamente investir numa nova forma de
fazer pedagogia, tudo isso é agenda do Plano Nacional de Educação, inclusive
passa pela Base Nacional Curricular, que também é agendada pelo Plano. Só que,
em vez de buscar enfrentar essas questões estruturais, o governo federal opta
por abandonar o PNE e, por Medida Provisória, forçar a implementação da sua
política.
Não vai dar certo. Educação não é corrida de 100 metros,
educação é maratona. O que vai acontecer com a MP do Ensino Médio é que tudo vai
ser tão descontinuado e tão desorganizado que, caso essa medida seja
implementada – os estados têm a opção de não implementar, inclusive isso está
sendo dito por vários secretários estaduais de educação –, o resultado vai ser
extremamente danoso na organização das redes.
Então a tendência não é que o Ideb melhore, é o Ideb piorar.
Isso é uma medida açodada para dizer que você está fazendo alguma coisa, para
retomar uma estratégia de focalização, para desconstruir o que foi feito pelo
governo passado, para investir no revanchismo político sem pensar nas
consequências pedagógicas.
Isso acontece por quê? Porque são pessoas que não entendem
de educação.
Eu não posso dizer que a Maria Helena e a Maria Inês Fini
[presidente do Inep] não sabem de política educacional, sabem. Mas o trabalho
delas em São Paulo ou do partido delas em São Paulo sequer deu resultado. Não
dá para dizer que o PSDB faz uma boa gestão na área da educação, considerando
que eles estão há 24 anos agora.
Quer dizer, já estão há mais de duas décadas na gestão e a
educação no Estado de São Paulo é péssima. Então essa justificativa do Ideb é
uma justificativa que, por muitos fatores, é incorreta. Exclui o fato de que
muito do que precisava ser feito para melhorar o Ideb não foi feito e exclui o
fato de que já existe uma agenda que defende a melhoria do Ideb que é o Plano
Nacional de Educação.
Ideb é a meta 7 do plano e o governo sequer responde sobre o
Ideb, sobre a meta 7, sobre as demandas que estão postas para a melhoria da
qualidade da educação. Então é o uso de um indicador de forma demagógica.
CC: A Maria Helena Guimarães diz que há um “tédio” no Ensino
Médio no Brasil? O senhor concorda com esse diagnóstico? Acha que esse problema
se resolve com a MP da reforma do Ensino Médio?
DC: É bem simples. Vamos supor que a MP seja implementada e
aumente as escolas de educação em tempo integral. Uma escola que vai,
simplesmente, sair de cinco horas diárias para sete , reproduzindo uma educação
entediante, só vai aumentar o tédio. Agora, eles editaram uma portaria que cria
ilhas de excelência.
Eles assumem, hipocritamente, que não tem dinheiro com a PEC
241 e que não tem dinheiro para trabalhar com todas as escolas e vão trabalhar
com as que já são boas ou que estão aptas a dar um salto de qualidade.
Ou seja, todo o trabalho feito pelas comunidades escolares
vai ser sugado pelo governo federal para ele colocar um recurso a mais, para
ele melhorar aquela escola de maneira orientada, criando essas ilhas de
excelência.
Para o conjunto das matrículas de Ensino Médio, se houver
educação em tempo integral, será uma educação mais entendiante, sem artes, sem
educação física, sem filosofia e sociologia, sem as matérias que os alunos mais
gostam.
Então se a Maria Helena está preocupada com o tédio, a MP é
mais entendiante ainda. Se o receio é a evasão, isso tende a aumentar. Até
porque o problema central do Ensino Médio não é no Ensino Médio em si, é no
percurso do estudante e especialmente nos anos finais do Ensino Fundamental.
Ali que você tem um problema grave.
CC: O ministro Mendonça Filho deu a entender exatamente
isso, que haverá uma reforma do Ensino Fundamental também. Pelo que já foi
falado, o senhor tem uma ideia do que pode vir por aí?
DC: Então, a portaria que foi lançada [em 11 de outubro] dá
uma pista bem clara de ilhas de excelência. O que eu vejo é que a tendência
para o Ensino Fundamental também é criar níveis de excelência e aumentar a
quantidade de parceria público-privada. Isso também é a linha geral de um
governo privatista. E não existe só uma modalidade de privatização, existem
várias modalidades, inclusive passar aspectos importantes da gestão pública
para a gestão privada.
CC: Alguns especialistas da educação alertam para a
possibilidade dessa MP abrir portas para uma experiência privatista como a que
ocorreu em países latinos também, com as chamadas chartes school? Esse é um dos
caminhos?
DC: O governo está estabelecendo a narrativa de que tem a
PEC 241, então o recurso público é menor. Então o governo vai dizer que é
preciso buscar soluções no mundo privado. Agora qual vai ser a novidade do
mundo privado?
É que o privado no Brasil não tem capacidade para dar conta
de todas as matrículas, até porque não traz lucros. Mas existe um aspecto mais
pernicioso da MP do Ensino Médio.
É o que permite, na trajetória da educação profissional, que
sejam feitas parcerias também com universidades privadas. As universidades
estão com muita dificuldade por conta da repressão do Fies [Fundo de
Financiamento Estudantil] e do ProUni.
Como o governo não pode reproduzir o Fies por conta da PEC
241, o que vai ser feito? Ele vai dar às instituições privadas, como Unip,
Uninove e grupo Estácio, o direito de ofertarem trajetórias de profissionalização
de um ano e meio. E aí vão fazer essas trajetórias de profissionalização
contabilizando créditos para o Ensino Superior, isso é o jogo daquela questão
dos créditos da Medida Provisória. Essa será uma privatização mais evidente.
O que eu estou querendo dizer em síntese é que, num primeiro
momento, as parceiras público-privadas vão ser orientadas em ilhas de
excelência, até para dizer que elas funcionam, o que não é verdade porque elas
vão utilizar aquilo que já vinha sendo desenvolvido por boas escolas. Isso é
pior até que a charter schools.
Pior não, mas uma modalidade diferente de privatização. Você
compartilha o processo de gestão. O setor privado compartilhando o processo de
gestão de uma escola estatal. Não dá para dizer que é uma privatização de oferta
de matrícula, é mais sútil e mais perigosa porque diminui a gestão democrática,
o controle social, o processo de gestão fica mais centralizado.Esse é um
caminho que vai ser trilhado.
Um outro caminho, mais próximo das charter schools, muito
dedicado à linha da profissionalização, são entidades do setor privado que vão
ofertar a trajetória de um ano e meio para os estudantes, em parceria com as
secretarias de educação.
Então, por exemplo, o Mackenzie vai lá e oferta uma
quantidade de matrículas para quem está fazendo um ano e meio de projeto de
profissionalização. Qual é o ponto? O foco da ação do Estado passa a ser na
trajetória dessa linha privatizante.
Quem opta por essa profissionalização de baixa qualidade,
quando entra no mercado de trabalho, não consegue fazer com que o seu diploma
seja um diploma que subsidie a ação profissional.
O profissional vai para o mercado de trabalho com um curso
ruim, fica quatro anos no mercado de trabalho na condição de subemprego e volta
para outro curso ruim. O único caminho que ele entende que pode dar chance no
mercado de trabalho são os cursos ruins.
Ele prejudica a formação dele, prejudica o ingresso mercado
de trabalho e o conjunto da carreira dele para aquilo que a OIT chama de
trabalho decente. O que mais prejudica uma trajetória de trabalho decente é
exatamente uma profissionalização em cursos de baixa qualidade. Isso numa
situação de crescimento econômico, imagina agora.
CC: Isso se conecta de alguma forma com a crítica que foi
feita sobre a retirada de disciplinas de humanas? Logo que a MP foi anunciada,
foram feitas análises de que essa reforma pretendia formar mais mão-de-obra do
que estudantes pensantes. Isso pode ser um reflexo da MP ou é uma teoria
fantasiosa?
DC: Não é que todos vão seguir uma formação mais medíocre. A
formação mais medíocre vai ser para os mais pobres. Existe uma
irresponsabilidade no discurso. Eles dizem: “nós queremos dar conta das
necessidades dos jovens”.
E é claro que os jovens desejam profissionalização. O
problema é que o gestor público precisa pensar além da demanda mais explícita
do cidadão, precisa analisar o conjunto de fatores para poder corresponder da
maneira mais correta e mais aprofundada sobre essa demanda.
O pior que pode acontecer para o gestor público é o
estudante dizer que quer profissionalizar, ele vai e dá o pior caminho, que não
vai garantir a plenitude profissional do estudante. É o que acontece com essa
MP do Ensino Médio.
Aqueles que vão optar pelo itinerário propedêutico não vão
ter impacto, até porque são tomadores de opinião, são de famílias com mais
renda e vão para a universidade. Para que dependem do dinheiro no final do mês,
essa trajetória de baixa qualidade vai ser uma tragédia.
Importante ter consciência que a questão do trabalho deve
compor o Ensino Médio, isso é um fato. Mas não deve ser uma agenda pela metade.
Não como uma formação. É quase que fazer uma política que não é emancipatória.
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