Por: Cida de Oliveira - RedeBrasil Atual
"Rei da soja", Blairo Maggi agora conta com nova semente transgênica resistente ao dicamba, mais tóxico que o glifosato
Conhecido como "rei da soja", o ministro da
Agricultura, Pecuária e Abastecimento do governo de Michel Temer (PMDB), Blairo
Maggi (PP) foi ironizado na COP 13, a Conferência das Partes da Convenção da
Diversidade Biológica das Nações Unidas (ONU), realizada em Cancún, no México.
Na última sexta-feira (9), a Coalizão Contra a Biopirataria (CAB, na sigla em
inglês) o "condecorou" com o diploma de vencedor do prêmio Capitão
Gancho, na categoria duas caras. Como ele e nem ninguém do governo estavam mais
no evento, o prêmio foi entregue a representantes de organizações da sociedade
civil brasileira, que deverão fazer chegar ao ganhador de fato.
Principal representante do agronegócio brasileiro, Blairo
recebeu a "distinção" por limitar a implementação de compromissos
assumidos pelo país em acordos para conservação da biodiversidade. Em vez de
ratificar o protocolo de Nagoya – acordo internacional que estabelece as
diretrizes para as relações comerciais entre o país provedor de recursos
genéticos e aquele que vai utilizá-los, abrangendo pontos como pagamento de
royalties e direito a transferência de tecnologias e capacitação –, ele criou a
lei 13.123/2015.
Conhecida como Marco Legal da Biodiversidade, a lei é
considerada negativa por setores da sociedade civil e comunidades agricultoras
tradicionais por, na prática, legalizar a biopirataria no Brasil, atender a
interesses de ruralistas e empresas privadas e ameaçar os direitos garantidos
na Convenção da Diversidade Biológica e na Convenção 169 da Organização
Internacional do Trabalho (OIT).
Durante a COPP 22 do Clima, realizada em novembro no
Marrocos, o ministro fez uma série de afirmações desastrosas, típicas da
maioria dos ministros de Temer. Chegou a dizer que o Brasil teria a agricultura
mais sustentável do mundo, constrangendo a delegação brasileira; que a "consciência" dos grandes
produtores mantém florestas preservadas; que assassinatos de ambientalistas no
país são "problemas de relacionamento"; e que a agropecuária
"não é vilã" das mudanças climáticas.
Para piorar, chamou de "intenção" do país as
Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs), que na verdade são
compromissos, obrigatórios, de redução de emissões de gases de efeito estufa
assumidos por países signatários do Acordo de Paris.
Um relatório do Greenpeace apontou o agora ministro de Temer
como um dos maiores responsáveis pelo desmatamento no Brasil nos anos 2003 e
2004. Na época, apenas 30% dos 12.576 km² desmatados no estado do Mato Grosso,
então governado por ele, foi feito de maneira legal.
A organização já o "condecorou" com o troféu
Motosserra de Ouro, em 2006, quando ele teria afirmado que "esse negócio
de floresta não tem futuro".
Agrotóxicos e transgênicos
Na mesma sexta-feira, a Comissão Técnica Nacional de
Biossegurança (CTNBio) divulgou a liberação comercial de três organismos
geneticamente modificados (OGMs). Entre eles, uma nova semente de soja
tolerante ao herbicida dicamba, desenvolvido pela Monsanto do Brasil.
A promessa é de eliminar e controlar somente as ervas
daninhas sem afetar a soja. A liberação comercial permite o uso no meio ambiente,
registro, transporte, consumo humano e animal, comércio (importação e
exportação) da espécie. Segundo a comissão, esse tipo de soja já teve aprovação
para plantio e consumo no Japão, Estados Unidos e Canadá. Nos países da Europa
é permitido o consumo, mas não o plantio.
Foram liberados ainda um tipo de algodão e um microrganismo
chamado Saccharomyces cerevisae, usado na produção comercial do etanol. O órgão
afirma ainda que a liberação comercial leva em conta a análise de risco
associado e o registro.
Mas, para muitos estudiosos, isso não é suficiente por uma
série de razões. Integrante da Associação Nacional de Agroecologia e da
Campanha Permanente contra os Agrotóxicos e pela vida, o agrônomo Leonardo
Melgarejo explica se tratar de uma soja que não morre sob aplicações do
dicamba, herbicida muito tóxico, bem mais perigoso que o glifosato.
"A semente foi criada porque o glifosato não funciona
mais devido ao seu uso obsessivo, que levou à multiplicação das plantas
tolerante a ele. O uso do dicamba trará o mesmo resultado. Em dez anos, teremos
várias populações de plantas que não serão controladas nem por ele e nem pelo
glifosato."
Melgarejo ressalta que a intensificação do uso do dicamba a
partir dessa nova soja trará mais danos ambientais e à saúde dos agricultores,
operadores de máquinas agrícolas, das pessoas que residem perto das áreas que
serão pulverizadas de avião, bem como dos animais. Com a adaptação das plantas
ao veneno, vão ser criadas outras sementes de soja transgênica tolerante a algum
outro herbicida. A tendência é substituir venenos perigosos por outros ainda
mais tóxicos."
Ele ressalta que essas sementes estão criando problemas mais
difíceis de serem controlados. "As plantas espontâneas que hoje sobrevivem
aos banhos de glifosato, e que em poucos anos vão sobreviver aos banhos de
dicamba, não poderão mais ser retiradas de nossas lavouras."
Isso porque, segundo ele, há propagandas de venenos
endossadas por cientistas "míopes", que desprezam a saúde da
população e do ambiente. "Precisamos mudar essa posição subserviente
desses formadores de opinião, que se colocam de costas para as necessidades da
população e da sociedade brasileira e desestimular seu uso. Agroecologia é a
saída. Veneno mata. Veículos (indutores) de venenos, tecnologias que estimulam
seu uso, devem ser desestimuladas."
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