Por Bajonas Teixeira de Brito Junior, colunista de política
do Cafezinho.
Aécio Neves é o presidente do maior partido de oposição ao
governo Dilma, o PSDB, foi o segundo candidato mais votado nas últimas eleições
presidenciais e, além disso, esteve à frente das manifestações pelo impeachment
e do processo que levou ao governo interino de Michel Temer. No entanto, como
se fosse um cidadão comum, Aécio some da mídia, não se posiciona a respeito da
política econômica e se cala sobre as questões decisivas num momento crítico da
história do país.
Em outros lugares, a opinião pública não aceitaria esse
desaparecimento porque um líder político não pode simplesmente abandonar suas
responsabilidades e esconder-se. Ele seria acusado de deserção. Um batalhão de
repórteres estaria no encalço de Aécio, dia e noite, como um pelotão de busca
atrás de um general desertor. Sobretudo, ele não poderia se furtar de prestar
contas à sociedade e aos seus eleitores sobre tantas denúncias, que se agravam
por virem de denunciantes diferentes (Sérgio Machado, Pedro Corrêa, Léo
Pinheiro, Delcídio do Amaral).
No Brasil, ao contrário, o chá de sumiço é a estratégia mais
corriqueira e manjada dos políticos acusados de corrupção. Foi o que fez Sérgio
Cabral Filho, governador do Rio, quando muitas nuvens negras se acumularem
sobre a sua praia. No entanto, no caso do Sérgio Cabral, a Globo profanou o seu
recolhimento, e uma indiscreta matéria da revista Época colou o dedo na sua
ferida. O título da matéria já disse quase tudo: Cabral exigiu 5% de propinanas obras do Maracanã, dizem delatores. Irônico, o texto começou assim:
“Desde que deixou o cargo de governador do Rio, há pouco
mais de dois anos, Sérgio Cabral tornou-se um político recluso. Suas aparições públicas são raras e nada se
sabe sobre como passa seus dias.”
A matéria passou o pente fino nas denúncias de transgressões
associadas ao nome do ex-governador. Mas e Aécio? Aécio vai muito bem,
obrigado, porque a mídia o deixa no conforto do limbo oculto num véu de
invisibilidade. Tudo indica que dificilmente será desalojado daí.
Com as inúmeras denúncias dirigidas a Aécio desde 2014, a
começar pelo aeroporto em terras do tio-avô, tudo se passou em brancas nuvens
flutuando num céu de brigadeiro. Só recentemente, e muito aos poucos, as
denuncias foram ganhando maior visibilidade, e isso mais por conta da PGR de
Rodrigo Janot do que por força da responsabilidade da mídia de informar. De todo modo, o acúmulo de denúncias nas
últimas semanas obrigaram Aécio Neves a
mergulhar mais fundo no submundo da invisibilidade.
O mês de junho de 2016 mostrou-se excepcionalmente rico em
denúncias de corrupção envolvendo Aécio Neves e de denuncias, o que é pior,
sacralizadas pelo selo de “delações premiadas”. Assim, na delação premiada do
ex-deputado condenado no mensalão e na Lava Jato, Pedro Corrêa (PP-PE), Aécio
surge como indicando diretores da Petrobras, já Sérgio Machado apontou seu
envolvimento em pagamentos, com recursos provenientes da corrupção
naturalmente, para financiar deputados e eleger-se presidente na Câmara Federalem 2001. Por fim, o empreiteiro Léo Pinheiro, sócio e ex-presidente da OAS,
afirma que pagou propina a auxiliares de Aécio.
Apesar dos pesares, embora a situação de Aécio tenha se
complicado extraordinariamente, não se levantou na mídia um clima de caça às
bruxas, de linchamento moral e político, semelhante ao que ocorreu com Lula, no
momento da sua indicação para o ministério, quando a Globo mobilizou até o STF
para vociferar raivosamente contra um ex-presidente da república.
O tratamento ameno e amigável, em que as manchetes aparecem
para sumirem instantes depois dos portais, não deixa espaço para o teatro da
indignação escandalizada.
Além disso, em diversos momentos, a mídia sai em defesa de
Aécio, sempre de forma indireta, seja através da apresentação de sua figura
como a de um líder prestigiado no meio político, seja dando ressonância a
defesas, como a recente de FHC garantindo que Aécio nunca pediu a ele cargos de
diretores na Petrobras.
O silêncio de alta densidade, sobretudo, que permite a Aécio
sumir das manchetes por tempo indeterminado constitui a principal forma de
proteção que a mídia tem concedido a ele. O presidente do PSDB pode estar
afundando aos poucos num pântano de descrédito, mas não é vítima nem do ódio
generalizado embora relativamente ameno, que o país devota hoje a Eduardo
Cunha, nem do ódio virulento cristalizado em certos segmentos da classe média
contra Lula. A mídia o tem resguardado contra isso.
Bajonas Teixeira de Brito Júnior – doutor em filosofia,
UFRJ, autor dos livros Lógica do disparate, Método e delírio e Lógica dos
fantasmas, e professor do departamento de comunicação social da UFES.
***
Nenhum comentário:
Postar um comentário