A Polícia Federal identificou uma troca de e-mails entre
profissionais da Vale e duas empresas ligadas à segurança da barragem de
Brumadinho mostrando que a Vale já havia identificado, dois dias antes,
problemas nos dados de sensores responsáveis por monitorar a estrutura da
barragem, de acordo com informações da TV Globo.
Segundo a reportagem, as mensagens começaram a ser trocados
no dia 23 de janeiros, às 14h38, e se encerraram no dia seguinte às 15h05, na
véspera do rompimento.
No depoimento de Makoto Namba, da empresa TÜV SÜD, um dos
engenheiros responsáveis por laudos de estabilidade da barragem, não constam,
no entanto, detalhes sobre as mensagens.
Ainda segundo a TV Globo, Namba afirma que só ficou sabendo
das alterações dos dados fornecidos pelos sensores após o rompimento da
barragem.
Em meu 1° pronunciamento como deputado federal, falo sobre o crime ambiental em Brumadinho. Especificamente, fala sobre a falta de punição à Vale, empresa responsável pelas tragédias em Mariana e Brumadinho. E por que uma CPMI no Congresso é fundamental para as investigações pic.twitter.com/egpFYN10VZ
O projeto de lei apresentado pelo deputado federal Rogério
Correia, do PT, determina a desativação imediata, em todo o país, das barragens
de rejeitos de mineração que usem o método de alteamento à montante,
considerado o mais perigoso pelos especialistas. É algo urgente e que é melhor
explicado pelo deputado neste vídeo.
Compartilhe, pois a pressão precisa ser grande para
vencermos o lobby das mineradoras.
Deputado Rogério Correia (PT-MG): a tragédia de Brumadinho
CPI JÁ!
Líderes do Partido dos Trabalhadores estiveram em Minas Gerais para prestar solidariedade à comunidade local e exigir apuração sobre as responsabilidades de crimes humanitários e ambientais cometidos pela empresa Vale do Rio Doce. #Brumadinhopic.twitter.com/aJApYiBQbn
‘Se é para prender alguém, que seja o presidente da empresa’Engenheiro critica detenção de colegas sob alegação de
riscos à investigação e aponta: quem pode atrapalhar é a alta direção da
companhia
São Paulo – Celso Santos Carvalho é engenheiro civil, doutor
pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. Responsável pelo programa
de engenharia de risco do Ministério das Cidades de 2003 a 2014, Celso está
revoltado com a prisão dos colegas André Yassuda e Makoto Manba.
Além dos engenheiros terceirizados, foram detidos em Minas
Gerais o geólogo Cesar Augusto Paulino Grandchamp, o gerente de Meio Ambiente
Ricardo de Oliveira, e o gerente executivo do Complexo Paraopeba, Rodrigo Artur
Gomes de Melo, funcionários da Vale.
Os dois engenheiros foram levados da capital paulista para
Minas, com pedido de prisão temporária desde o último dia 28. Os mandados foram
expedidos em operação conjunta pelo Ministério Público do estado, o Ministério
Público Federal e a Polícia Federal. A justificativa foi terem atestado a
estabilidade da barragem da mina do Córrego do Feijão, rompida no dia 25 de
janeiro, em Brumadinho.
“Conheço os dois. São engenheiros geotécnicos de enorme
experiência. Makoto trabalhou comigo no IPT (Instituto de Pesquisas
Tecnológicas) no início dos anos 1990, na área de segurança de barragens. Há 25
anos já era experiente neste tema”, relatou Carvalho em um post colocado em sua
página do Facebook. “Não temos contato há muito tempo, mas guardo a memória de
um excelente profissional.”
Na mensagem, o doutor da Poli critica a prisão preventiva,
“antes de qualquer investigação”, e faz uma série de questionamentos que,
segundo ele, permanecem sem resposta. “Qual era o objetivo do laudo? Quais suas
restrições? Quando foi feito? Qual era a situação da barragem quando o laudo
foi feito? Qual o campo de validade das conclusões do laudo? Em que
investigações o laudo se apoiou? Houve pressão da Vale sobre a equipe
técnica?”.
À reportagem da Rede Brasil Atual, o engenheiro falou da
revolta que inspirou seu post. “Nessa comoção toda vão lá e prendem por 30 dias
dois engenheiros de uma empresa contratada da Vale que assinaram um laudo de
segurança. Ninguém viu o que é esse laudo. Mas um laudo sempre vai definir que
tem segurança em uma certa condição. Está apoiado em determinadas informações.
Quem deu as informações para eles? Tem um campo de validade daquele laudo. E
depois a gente não sabe também o que foi feito na obra depois que eles fizeram
o laudo, o que foi alterado depois da época do laudo. Teve alguma alteração?
Eles não operam a barragem.”
Para ele, os colegas foram presos num momento de comoção,
para dar uma resposta ao público, e possivelmente esconder os verdadeiros
culpados. “O que justifica essa prisão? Em que eles podem atrapalhar as
necessárias investigações (uma das alegações para o pedido de prisão), posto
que não são empregados da Vale, mas de uma empresa de consultoria? Se for para
prender alguém que, este sim, pode atrapalhar as investigações e é o primeiro
responsável pelo crime de Brumadinho, prendam o presidente da Vale. Mas esse
foi indicado pelo Aécio, né?”, afirma em seu post.
O Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) informou que,
no oitavo dia desde o massacre da Vale, 115 pessoas morreram e 71 corpos foram
identificados. O número de desaparecidos subiu de 238 para 248, entre
trabalhadores e moradores de Brumadinho. Foram localizadas 395 pessoas e
resgatadas 192. Há 108 desabrigadas.
Engenheiros revoltados
Celso Carvalho critica, ainda, as licenças de alteamento das
barragens (aumento da altura para que mais rejeito possa ser depositado) – “um
sistema inseguro enquanto está em operação e depois ainda por muito tempo” – e
apresentou outros questionamentos. “Achei estranho que se a mina estava
desativada e estavam em processo de licenciamento para continuidade, porque
tinha tanto funcionário lá. Estavam fazendo o quê? São questões importantes.”
O engenheiro é outro a atacar o lobby das empresas
mineradoras e o lucro desmedido que levou vidas e causou outro enorme desastre
ambiental no país. “Se esse risco todo não é nenhuma novidade, por que o
Legislativo estadual e federal não definiram leis mais rígidas? Segundo soube,
o Crea (Conselho Regional de Engenharia e Agronomia) de Minas Gerais é uma das
entidades da sociedade civil no Conselho Estadual de Meio Ambiente que aprovou
esse novo licenciamento. É o órgão técnico dos engenheiros, você acha que não
sabe disso? Mas é que defendem mais a empresa que a área técnica estrita.”
O Crea São Paulo também é alvo de críticas de Celso. Em
nota, a entidade informa que “instaurou procedimento administrativo para apurar
a responsabilidade dos engenheiros no ocorrido. Dependendo do resultado das
investigações, os profissionais podem ter, como consequência, o registro
cassado”.
“Eles crucificaram os engenheiros. Isso está revoltando a
categoria”, relata. “Embarcaram na comoção, nessa questão de que são os
culpados. Falam em cassação do registro profissional! Essa justiça parcial e
midiática está levando todo mundo a entrar nessa onda para aparecer na Globo.”
A Associação Brasileira de Geologia de Engenharia e
Ambiental (ABGE) defende “uma necessária reflexão sobre as práticas de projeto
e construção”, mas defende os profissionais. “Críticas e ilações sobre o
ocorrido sem os elementos necessários para uma avaliação criteriosa das causas
da ruptura da barragem constituem especulações que nada contribuem. É certo que
o laudo técnico de avaliação das condições de segurança não foi suficiente para
detectar ou prever o desempenho da barragem, construída segundo práticas mais
vulneráveis, porém usuais nos empreendimentos de mineração. As ações judiciais
contra os técnicos que participaram dessa avaliação, de reconhecidas reputação e
competência, nos parecem precipitadas e despropositadas”, afirma em nota.
“Certamente, os necessários esclarecimentos dos profissionais envolvidos na
elaboração do laudo técnico seriam dados sem tais medidas coercitivas.
Observamos que a matriz de responsabilidades é grande, não está restrita a
esses técnicos e não isenta o empreendedor e seus prestadores de serviços da
responsabilidade objetiva.”
Para a Associação Brasileira de Mecânica dos Solos e
Engenharia Geotécnica (ABMS), a geotecnia trata com incertezas, não é ciência
exata, e as normas e recomendações evoluem face ao avanço do conhecimento e
ocorrências. “Diante dessa tragédia, é compreensível que todos os segmentos da
sociedade, e a própria ABMS, busquem respostas imediatas e consistentes que expliquem
o acidente e que levem à responsabilização dos envolvidos. Mas é preciso que
esse processo seja feito com serenidade. A empresa e os engenheiros
responsáveis por atestar a segurança da citada barragem dentro da legislação em
vigor são associados à ABMS há mais de 30 anos e desfrutam de elevada
credibilidade no meio técnico e científico, não havendo nada que os desabone.”
Funcionária que servia café na Vale diz que executivos
sabiam de problemas na barragem de Brumadinho